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sábado, 2 de abril de 2016

Sonho ing: amor obsessivo

Sonho ing: amor obsessivo

Eu estava na Universidade com minhas amigas pesquisando na biblioteca algumas informações necessárias para um de nossos conteúdos. Recebemos, de repente, uma apostila, grossa por sinal, de capa preta, na qual podíamos nitidamente ver conteúdos ligados à sedução e a relacionamentos. Quando abri a apostila, curiosa a respeito de seu conteúdo,
lia-a inteira em pouco tempo. Não conseguia explicar com exatidão o que aquelas palavras reproduziram em mim, mas sei afirmar de forma absoluta que foi a mesma sensação tida por minhas colegas após a leitura. Lembro-me de que na capa havia uma imagem de um casal de namorados, visivelmente brigando, e uma frase ao lado, como em um tópico ou legenda, que dizia mais ou menos assim: onde há interferência da família, não dá certo. Mas, acima dessa imagem, havia uma outra, central na capa, em que se apresentavam um homem e uma mulher satisfeitos, um casal de namorados felizes; da mesma forma, com uma legenda que trazia algo que remetia ao conteúdo da apostila: a forma correta de seduzir, sem possibilidade de fracassos.
O mais interessante era perceber o quanto isso mexeu comigo, fazendo com que eu fosse atrás do autor da apostila, um professor desconhecido, provavelmente novato, do qual ainda não havia ouvido falar na Universidade; o motivo de aquelas apostilas terem parado em nossas mãos, igualmente desconhecido. Ao proclamar a minha vontade súbita de ir até o autor, minhas amigas concordaram, muitas estavam em estado de êxtase, outras numa ansiedade incontrolável. Era necessário, era preciso, era incontrolável ir até ele.
Fomos. Ao vê-lo, uma surpresa. Um homem com um aspecto encantador. Que beleza no rosto e nos gestos! Que semblante! Que brilho nos olhos! Olhávamos – tínhamos certeza disso – quase que para um deus. Enfim, encontramos o famoso desconhecido autor daquela apostila. Nossos dias dali em diante focaram-se exclusivamente no entendimento das teorias daquele professor, em ouvi-lo, vê-lo. Tornou-se uma rotina procura-lo incansavelmente pelos corredores, salas, espaços de jardim e recreação, a fim unicamente de estar ali, perto daquele ser, daquele homem! Com o tempo, e ao encontrarmos mais vezes e com cada vez mais frequência, percebemos que não éramos as únicas. Ao todo, trinta mulheres de idades aproximadas, algumas da mesma sala que eu, outras de outros cursos, mas todas, absolutamente todas, estavam ali sempre atrás do professor, querendo o mesmo que eu e minhas amigas: vê-lo, ouvi-lo, senti-lo se fosse possível.
Tornava-se uma obsessão. Não havia mais um dia sequer em que minha (nossa) preocupação não fosse procura-lo até encontra-lo. Dias sem vê-lo, ou ter alguma notícia, eram dolorosos e inconcebíveis. Lembro-me quando tivemos um contato com ele no qual a conversa foi um pouco mais íntima. Nessa conversa, estavam as trinta mulheres. Em algumas outras, parecia haver encontros com grupos, como se ele quisesse conversar separadamente com mulheres que tinham personalidades mais parecidas e, com isso, as conversas eram mais produtivas. Mas nessa conversa, o contato foi mais íntimo porque ele nos revelou que não era exatamente um professor. O homem tão estimado por nós era assassino, torturava pessoas até a morte, praticava roubos com frequência, o que parecia ilógico devido ao fato de sua riqueza ser visível. Andava sempre muito bem vestido, tinha ares de uma pessoa intelectualizada, conhecia de diversos assuntos, falava bem, escrevia ainda melhor, possuía hábitos e gostos incomuns a pessoas de baixa renda. Um homem fino, de porte, e sem sinais de cleptomaníaco. Chegamos a pergunta-lo se seria, ele negou. E vimos, tivemos a certeza, que ele não era mesmo. Roubava por gosto, não por doença, como também matava por gosto. Daí se esta última ação seria por doença, aí já não sei responder. Nem perguntei. Ninguém perguntou. Falávamos pouco em nossos encontros – nós, mulheres. Ele era quem falava na maior parte do tempo, sempre com sua calma, paciência, erudito como sempre, usando palavras que nem sempre compreendíamos, ou não queríamos compreender, ou, ainda, não conseguíamos compreender porque nosso foco era outro: vê-lo simplesmente, ouvi-lo simplesmente, estar ali em frente àquele homem, não importasse por quais circunstâncias, com quais objetivos. Queríamos sugar ao máximo do pouquíssimo tempo que ele nos dedicava.
Estranho é tentar explicar como a descoberta de que o professor era um assassino não nos amedrontou. Ao contrário, a cada dia, digo por mim e por todas as outras vinte e nove, eu ficava mais alucinada por ele, numa angústia que me dilacerava no momento entre o não estar com ele e o estar com ele. E quando estava, ah!, valia a espera, e era o único momento de paz, de alegria, de calma, de amor.
Sim, eu o amava. Todas nós o amávamos. A aparência e os atos sedutores daquele homem nos enredava de tal forma que era impossível não ceder ao seu chamado. Bastava que ele passasse por perto, e todas nós o seguíamos. Fosse aonde fosse, mesmo que sem motivos, mesmo tendo afazeres, largávamos tudo. O privilégio de nossas horas, nossos dias, nossas lembranças e pensamentos, tudo era dele exclusivamente.
Com o tempo, eu e minhas amigas mais próximas começamos a ter um pouco de medo quando o professor nos contava dos seus assassinatos. Pensávamos se ele seria capaz de nos matar também. Apesar de que isso parecia uma remota possibilidade, já que ele era tão amável conosco, e demonstrava um zelo até. Perguntava como estávamos, nos fazia breves e sutis carinhos no rosto ou nos cabelos, o que já nos era o suficiente para ama-lo ainda mais e mais. Não tínhamos a pretensão de que ele nos amasse. Eu não tinha, nem minhas amigas, nem as demais. Era um sonho bom demais para se concretizar. Mas de fato sua forma de agir remotava qualquer possibilidade de pensar que ele poderia fazer conosco as mesmas torturas e mortes que nos contava, sempre com aquele brilho lindo no olhar.
Mas fato é também que o medo entre nós – eu e minhas amigas – crescia paulatinamente. Até que um dia começamos a pesquisar sobre ele. Percebemos que ele mentia o nome, ninguém sabia onde morava ou de onde vinha. Seu passado era indecifrável, e mesmo que pensássemos em segui-lo para descobrir onde morava, seria um ato, além de traição ao amor que sentíamos, inútil. O professor nos mantinha presas na Universidade. Havia um local exato onde ficávamos, passávamos a noite sem que ninguém da administração ou dos alunos, ou da classe docente percebesse nossa presença. Ninguém sabia dos nossos encontros. Saberiam se contássemos. Mas, ainda por motivos que não consigo entender, nenhuma de nós quis contar a ninguém. Nossa casa era a Universidade. Liamos livros que o professor nos indicava, fazíamos tudo conforme ele nos orientava. Pela manhã, assistíamos às aulas dos professores de nossas turmas, normalmente. À tarde, fazíamos tarefas ou leituras da Universidade, mas, bastava ser marcado um encontro para que largássemos o que quer que estivéssemos fazendo.
Algo me incomodava e eu ainda não sabia. Vim a saber com o passar dos meses. O medo que crescia começou a me dominar. Mas eu era minoria na turma das trinta mulheres que aquele homem dominava. E meu amor por ele me impedia de agir contra ele, dizer algo a quem quer que fosse, tentar rugir. Como eu iria fugir se não queria?
Até que um dia, com as demais descobertas sobre ele, inclusive o fato de que ele estava começando a preparar uma “investida” em outro grupo de mulheres, resolvi perguntar às minhas amigas se elas concordavam em irmos até a biblioteca e procurar saber sobre aquela apostila que lemos inicialmente. Éramos cinco mulheres ao todo – o meu grupo de amigas. Elas concordaram, mesmo porque éramos as únicas das trinta que começavam a ter um pouco mais de senso crítico.
Fomos à biblioteca. Perguntamos a uma das funcionárias se o professor havia feito no início do ano (já se passava o primeiro semestre) muitas cópias de uma mesma apostila. Ela disse que sim, trinta cópias. E que, recentemente, havia feito outras trinta. Chegava o fim. Ele nos trocaria por outras? Assim? Sem nos dar satisfação? A funcionária que nos atendeu foi enfática ao dizer que era o único material que o professor pedia, e que ainda não entendia por que ele ainda não havia sido contratado pela Universidade.
Havia algo de errado. E minha consciência começava a agir. Falei com minhas amigas e decidimos denunciá-lo. Era um assassino, um homem que manipulava mulheres sabe-se lá por qual motivo! Precisávamos agir rápido e em silêncio. Programamos uma fuga. Como sabíamos que ele sempre entrava pela passagem frontal da Universidade – eu o via incansavelmente entrar todos os dias –, decidimos planejar a fuga por uma outra saída, e durante o horário matutino do nosso curso, para não levantar suspeita por parte dele, nem por parte das outras mulheres. A outra passagem era ideal. Já estava tudo planejado: sairíamos e iríamos diretamente denunciá-lo à polícia. O medo nos fazia agir. Não o conhecíamos. Amávamos aquele homem mais do que tudo, mas talvez não mais do que a nós mesmas. Tudo combinado.
Conseguimos sair. Na esquina da Universidade, minhas quatro amigas – quase que em um gesto combinado – viram-se para o lado oposto ao lado para o qual devíamos seguir. Perguntei o que elas estavam fazendo, para onde iriam. E elas me disseram que viram o professor em frente à universidade, pronto para entrar, e uma das minhas amigas disse em nome de todas e de forma absoluta “iremos atrás dele, não iremos entrega-lo”. Fiquei abismada. Como elas podiam voltar numa decisão como essa? Estava tudo planejado! Mas tive que seguir sozinha. Não desisti. Fui para casa.
Não fui direto para a polícia porque não tinha pensado ainda em como o denunciaria. Faltavam provas, mesmo porque as apostilas haviam sumido há tempos. Ninguém sabia como nem quando. Simplesmente descobrimos que não estavam mais juntas aos nossos pertences.
Chegando a minha casa, tudo parecia normal. Tal qual deixei. Entrei e fui direto ao quarto. Uma empregada ajudava a arrumar a casa, quando uma mulher, dizendo minha amiga, entrou e pediu que me visse. Eu nunca a tinha visto em toda a minha vida. mas como ela agiu tão rapidamente, eu pouco ou nenhum tempo tive para detê-la. A empregada a deixou entrar em meu quarto, e, enquanto conversava com a empregada, ela começou a retirar coisas de dentro de uma bolsa. Dizia que era estudante e que gostava muito de escrever, retirou de dentro da bolsa meu diário pessoal. Eu nem sabia que o havia perdido. Disse depois que gostava muito de tocar violão e, apontando para um violão que estava próximo à minha cama, disse que era como aquele. Igualzinho. Em sequência, a mulher disse que gostava de ler a Bíblia, e retirou da sua bolsa uma que reconheci como minha. Eu também não imaginava como ela poderia ter parado nas coisas daquela estranha mulher. E isso se foi repetindo com vários objetos meus. Até que eu entendi seu propósito.
A mulher havia vindo em nome do professor. Se eu o entregasse, eu me comprometeria. Perguntar-me-iam por qual motivo não o entreguei antes, por que deixei-me levar por sua conversa, por que eu ia aos encontros, por que não tentei me comunicar com ninguém para dizer que estava presa dentro da Universidade... eu seria tida como cúmplice. Quaisquer uma das trinta mulheres, nós seríamos cúmplices. Porque sabíamos dos atos terríveis cometidos pelo professor e nada falamos, não nos manifestamos, ninguém se opôs. Ninguém o denunciou em tempo hábil. Nós o amávamos.
Deixei que a mulher fosse embora, ela viu em minhas feições que eu havia entendido o recado. E, logo em seguida, ele apareceu. Sim, o professor, em minha casa. Como sabia meu endereço, até hoje não sei explicar. Bastou que saísse a empregada e ele entrou em meu quarto como se já conhecesse a casa e já soubesse como adentrá-la. Deitou-se em minha cama e eu ao seu lado.

Ao olhar naqueles olhos azuis, naquele rosto branco e lindo, respondi ofegante à pergunta que ele me fez “você iria me denunciar?” “Não, eu amo você, eu jamais teria coragem de fazer isso, mas também não quero que isso acabe.” “Mas vai acabar. Já acabou” “Você encontrou outras mulheres?” “Sim, outras trinta”. Meu ar parecia faltar, e minha vontade era de chorar descontroladamente. Eu o estava perdendo para sempre. “Mas e agora, você não vai ficar comigo, nem com nenhuma das outras?” “Você sabe que não, você me conheceu por completo, viu a minha essência. Sou o Mestre da sedução, conquisto a mulher que eu quiser, tenho todas em minhas mãos, mas não as quero para mim. A mim me basta que elas se apaixonem, e aí sigo o meu caminho, conquistando outras tantas, quantas eu quiser.” “Acabou? De fato, acabou?” Chorei. Chorei descontroladamente, porque ao menos um toque, algo qualquer que me unisse àquele homem eu queria. Mas o trabalho dele havia findado. “Acabou”. E ele saiu do meu quarto sem olhar para trás, deixando-me estendida na cama, em prantos inexplicáveis.


Autoria: Ju B

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