Estar à beira do caos é sentir, ainda que sem deixar que transpareça aos demais, a sensação dúbia de plenitude e perda. Plenitude porque todo caos é também cais. É chegada a ponto final, no qual, sabe-se, tem-se a nítida sensação de cumprimento. É o fim da linha, o último passo dado. Como se dissesse: "cheguei, daqui não passarei; cumpri, nada mais tenho a fazer!"
Estar à beira do caos, que também é cais, é a Plenitude do dever cumprido. Olha-se para trás, enxerga-se todo o caminho trilhado, tudo o que foi feito, e também o que não foi; tudo o que foi sentido, e também o que não se permitiu sentir; tudo o que foi vivenciado, mas também tudo o que, por sabe-se lá qual razão, não se viveu. Essa Plenitude faz com que a linha final - limite máximo, fronteira absoluta - pareça tão atraente, tão rica em detalhes, tão amistosa... que não se olha para frente. Quando se está nesse ponto, não há por que olhar para baixo e ver o tamanho da queda. Plena... para... e só sente.
Estar à beira do caos é sentir-se, paradoxalmente, em perda total. Tal qual veículo em queda livre, corpo em gravidade, na descida infinita e iminente... inevitável. Essa Perda é de sentidos, porque já não se sabe mais o que se pensa, já não há razões nem raciocínios que justifiquem, já não se sabe, não se tem, não se é, nem se há. Sobra, simplesmente, o nada... É a Perda de oportunidades, uma vez que o que foi, simplesmente, foi; não há mais como lutar contra isso. Se vivido, se não, tanto faz. Se amado, se não, menos ainda.
Estar à beira desse caos - cais-abismo - é estar em Perda de todos, Perda de Si, ao ponto do não reconhecimento. Quem é se nada nem ninguém é algo ou alguém além do limite desta linha? O Nada. O Nada toma forma física, materializa-se. E, se se materializa, então.. há?
A dúvida...
Estar à beira do caos é estar em plena convicção do Nada, em plena certeza do Sim e do Não, concomitantemente. Tudo se relativiza. Jogam-se fora todas as convicções para que elas próprias voltem e venham e nos forcem a refletir sobre... não sei.
À beira desse abismo do fim da linha, à iminência dessa finitude relativizada, ao instante de parada contínua, manifestação estagnada... encontro-me. Sou e Não. Estou e Menos. Vou Ficando. Parto que não Gero.
Sou Eu que (Me) Perco. Você Segue.
05-07-2018, Juliana Barreto - Pirapora-MG.

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